No Sul do Brasil e nas regiões serranas, o inverno muda a rotina de concretagem. A pega demora, a desforma atrasa e, nos dias mais frios, existe o risco real de a água do concreto fresco congelar. Nada disso impede a obra de seguir, desde que a equipe saiba o que a norma exige e planeje a concretagem em vez de improvisar.
Este guia reúne os requisitos da ABNT NBR 14931:2023, a norma de execução de estruturas de concreto, e as práticas de campo que fazem diferença em clima frio.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Por que o frio atrapalha o concreto
O endurecimento do concreto vem da hidratação do cimento, uma reação química que fica mais lenta quanto mais baixa a temperatura. Na prática, isso significa:
- Pega mais lenta: o concreto fica mais tempo mole, o acabamento de lajes atrasa e a exsudação aumenta.
- Ganho de resistência mais lento: a resistência necessária para desformar ou protender chega dias depois do previsto.
- Risco de congelamento: se a água livre congela antes de o concreto ganhar resistência, ela expande e cria microfissuras internas. O dano é permanente, mesmo que a peça pareça boa por fora.
- Fissuras térmicas: diferenças grandes entre o núcleo aquecido pela hidratação e a superfície exposta ao ar frio geram tensões.
Um ponto que alguns textos antigos invertem: o frio não traz "benefício" de produtividade nem dispensa cuidados de cura. O que se sabe é que concreto lançado em temperatura baixa, desde que protegido do congelamento e bem curado, tende a apresentar menos fissuração térmica do que o lançado no calor.
O que a NBR 14931:2023 exige
A versão de 2023 da NBR 14931 substituiu a de 2004 e passou a cobrir concreto armado, protendido e reforçado com fibras. Ela é exigida para projetos protocolados para licenciamento a partir de outubro de 2023. Os pontos que interessam ao clima frio:
| Tema | Requisito da NBR 14931:2023 |
|---|---|
| Temperatura do concreto no lançamento | Mínimo de 5 °C e máximo de 32 °C (item 10.2.6.1) |
| Previsão de geada | Suspender a concretagem sempre que houver previsão de queda da temperatura ambiente abaixo de 0 °C nas 48 h seguintes, salvo disposição do projeto ou do responsável pela execução (10.2.6.2) |
| Concreto submerso | Não lançar quando a água estiver abaixo de 5 °C |
| Duração da cura | Até alcançar as propriedades desejadas; elementos de superfície (lajes, pisos) devem ser curados até fck ≥ 15 MPa (11.2.5) |
| Névoa úmida | Cuidados adicionais abaixo de 10 °C; não aplicar o jato diretamente na superfície |
| Água de cura | Evitar água muito mais fria que o concreto: gradiente acima de 20 °C pode fissurar |
| Desforma | Conforme plano de desforma, com resistência (fcj) e módulo (Eci) definidos para a idade de retirada |
Observe que a norma limita a temperatura do concreto, e não só a do ar. Um caminhão-betoneira pode chegar a 8 °C numa manhã de 3 °C, mas a peça fina exposta ao vento vai perder calor rápido. O controle precisa olhar as duas coisas.
A edição de 2004 proibia expressamente aditivos à base de cloreto de cálcio, porque cloretos atacam a armadura. Esse cuidado continua válido: aceleradores só com desempenho comprovado e isentos de cloretos em concreto armado e protendido.

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Referência internacional: ACI 306
O guia norte-americano ACI 306R-16 é muito citado em projetos com clima rigoroso. Ele considera condição de clima frio quando a temperatura do ar cai, ou deve cair, abaixo de 4 °C durante o período de proteção. Também registra um número útil para o campo: concreto protegido até atingir cerca de 3,5 MPa de resistência à compressão não sofre dano com um único ciclo de congelamento. Se houver ciclos repetidos de gelo e degelo, essa resistência não basta.
A NBR 14931 é a norma que vale no Brasil; o ACI serve como apoio técnico para definir medidas de proteção.
Medidas práticas antes, durante e depois
No planejamento
- Consultar a previsão de temperatura para as 48 h seguintes à concretagem e registrar a decisão.
- Combinar com a concreteira a temperatura de entrega e o uso de aditivo acelerador compatível com o traço.
- Avaliar cimento com maior velocidade de ganho de resistência, se o projeto permitir.
- Reservar mantas, lonas e termômetros antes do dia, e não na hora.
Na concretagem
- Medir a temperatura do concreto na chegada de cada caminhão.
- Remover gelo e geada de fôrmas e armaduras antes do lançamento. Nunca lançar sobre base congelada.
- Começar de manhã, para que as primeiras horas de endurecimento aconteçam no período mais quente do dia.
- Reduzir o intervalo entre lançamento e proteção.
Depois do lançamento
- Cobrir a superfície com lona e manta térmica, mantendo umidade por baixo.
- Em lajes, proteger também as bordas e cantos, que perdem calor mais rápido.
- Manter as fôrmas por mais tempo: além de proteger, elas reduzem a necessidade de cura secundária nas faces se o concreto já passou de cerca de 15 MPa.
- Moldar corpos de prova extras curados junto à peça, para decidir a desforma pela resistência real e não pelo calendário.
Exemplo prático: laje concretada numa semana fria
Uma laje maciça de 150 m² está programada para quinta-feira. A previsão indica mínima de 2 °C na madrugada de sexta e de 4 °C na de sábado, sem previsão abaixo de 0 °C.
- Pode concretar? Sim. Como não há previsão de temperatura abaixo de 0 °C nas 48 h seguintes, a norma não manda suspender. Se a previsão mostrasse −1 °C, a concretagem deveria ser adiada, salvo decisão diferente do projeto ou do responsável técnico.
- Temperatura do concreto: exigir no mínimo 5 °C no lançamento; na prática, pedir à concreteira uma margem acima disso, já que a laje perde calor durante o lançamento e o acabamento.
- Horário: início às 7h, com término previsto antes do meio da tarde.
- Proteção: logo após o acabamento, lona plástica e manta térmica sobre toda a laje, com atenção às bordas.
- Cura: manter a superfície úmida e protegida até a laje atingir fck de 15 MPa, verificado em corpos de prova curados na própria laje.
- Desforma: só quando os corpos de prova indicarem a resistência e o módulo definidos no plano de desforma. Em semana fria, é normal esse prazo passar do habitual.
Para o orçamentista, o exemplo mostra custos que costumam ficar de fora: aditivo, mantas, horas extras de proteção, corpos de prova adicionais e fôrmas paradas por mais tempo.
Perguntas frequentes
Abaixo de que temperatura não posso concretar?
A NBR 14931:2023 fixa a temperatura mínima do concreto no lançamento em 5 °C e manda suspender a concretagem se houver previsão de temperatura ambiente abaixo de 0 °C nas 48 h seguintes, salvo disposição do projeto ou do responsável pela execução.
Posso usar aditivo "anticongelante"?
Só com desempenho comprovado e compatibilidade com o cimento. Em concreto armado ou protendido, evite produtos com cloretos, que corroem a armadura.
Por quanto tempo devo curar no inverno?
Para lajes e pisos, até o concreto atingir fck de 15 MPa, segundo a NBR 14931:2023. No frio, esse marco chega mais tarde, então a cura dura mais dias do que no verão. Decida pela resistência medida, não por um número fixo de dias.
Conclusão
Concretar no frio é perfeitamente possível, mas exige planejamento. Os pontos centrais da NBR 14931:2023 são simples de lembrar: concreto entre 5 °C e 32 °C no lançamento, suspensão se houver previsão de temperatura abaixo de 0 °C nas 48 h seguintes e cura de lajes até 15 MPa. Somando proteção térmica, controle de temperatura e desforma decidida por ensaio, a estrutura chega à resistência de projeto sem dano escondido.