A brita graduada simples, ou BGS, é uma das camadas mais usadas em base e sub-base de pavimentos no Brasil, de rodovias a pátios industriais. Parece só "pedra misturada", mas uma BGS que não atende à faixa granulométrica, à umidade ou ao grau de compactação vira afundamento de trilha de roda em poucos meses.
Este guia reúne o que a especificação pede, quais ensaios controlam a camada e como calcular a quantidade para orçamento.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
O que é BGS
A especificação do DER-SP (ET-DE-P00/008, revisão B, de março de 2024) define a brita graduada simples como uma camada de base ou sub-base composta por mistura, feita em usina, de produtos de britagem de rocha sã, enquadrada numa faixa granulométrica contínua. A estabilidade vem do entrosamento entre os grãos e da compactação, sem cimento ou cal.
Três pontos da definição merecem atenção:
- Rocha sã: o agregado vem de pedreira, britado e classificado. Não é cascalho de jazida nem material "bica corrida" sem controle.
- Usina: a mistura é dosada em usina com silos separados e água controlada, e não feita com pá-carregadeira na pista.
- Granulometria contínua: há grãos de todos os tamanhos, do maior ao pó, para que os finos preencham os vazios entre os graúdos.
Na prática, a usina compõe a BGS a partir de frações da pedreira, como brita 1, pedrisco e pó de pedra. A proporção sai do projeto de mistura, ajustado até a curva cair dentro da faixa escolhida.
Quais normas usar
Aqui mora uma confusão comum. O DNIT chegou a circular, em 2009, um projeto de norma específico para sub-base e base de BGS, mas ele não foi publicado como norma numerada. Nas obras federais, a referência formal para bases granulares é a DNIT 141/2022-ES (Pavimentação – Base estabilizada granulometricamente), que cancelou a versão de 2010. Para sub-base existe a DNIT 139-ES.
Para a BGS propriamente dita, a especificação mais detalhada e mais citada é a do DER-SP, adotada como referência por outros órgãos estaduais. Vários estados e concessionárias têm a sua (DER-PR, GOINFRA e outras), com valores parecidos. Vale sempre a especificação indicada no projeto ou no edital.
Requisitos dos materiais e da mistura
A tabela compara os principais limites das duas referências. Note que a DNIT 141/2022 é mais genérica, porque cobre qualquer base granular, inclusive solos.
| Parâmetro | DER-SP ET-DE-P00/008 (BGS) | DNIT 141/2022-ES (base granular) |
|---|---|---|
| Abrasão Los Angeles | < 50% (NBR 16974) | ≤ 55% |
| Equivalente de areia do miúdo | ≥ 40% (NBR 12052) | > 30% quando LL e IP excedem os limites |
| Índice de forma | > 0,5 (DNIT 425/2020-ME) | — |
| Durabilidade (5 ciclos) | Sulfato de sódio < 20%; magnésio < 30% | — |
| CBR / ISC | ≥ 100% na energia modificada | ≥ 60% (N ≤ 5×10⁶) ou ≥ 80% (N > 5×10⁶), em projeto pelo método empírico |
| Expansão | ≤ 0,3% | ≤ 0,5% |
| Passante na nº 200 | ≤ 2/3 do passante na nº 40 | ≤ 2/3 do passante na nº 40 |
| Grau de compactação | ≥ 100% (energia modificada) | ≥ 100% (energia de projeto) |
| Umidade na compactação | ótima ± 1,0% | ótima ± 1% |
| Espessura por camada | 10 a 20 cm | 10 a 20 cm |
Faixas granulométricas do DER-SP
A curva de projeto precisa ser contínua e cair numa das quatro faixas abaixo (% em massa passando). A faixa de trabalho é a curva de projeto com as tolerâncias da última coluna.
| Peneira | mm | A | B | C | D | Tolerância |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 2" | 50 | 100 | — | — | — | ±7 |
| 1 ½" | 37,5 | 90–100 | 100 | — | — | ±7 |
| 1" | 25 | — | 75–90 | 100 | 100 | ±7 |
| ¾" | 19 | 50–85 | 60–85 | 60–95 | 75–100 | ±7 |
| 3/8" | 9,5 | 30–60 | 40–75 | 50–85 | 60–100 | ±7 |
| nº 4 | 4,8 | 25–55 | 30–60 | 35–65 | 50–85 | ±5 |
| nº 10 | 2,0 | 15–40 | 20–45 | 25–50 | 40–70 | ±5 |
| nº 40 | 0,42 | 8–20 | 15–30 | 15–30 | 25–45 | ±5 |
| nº 200 | 0,075 | 2–8 | 5–15 | 5–15 | 10–25 | ±2 |
As faixas A e B admitem camadas de 10 a 20 cm; C e D, de 10 a 15 cm. Para tráfego pesado, a própria especificação recomenda faixas mais grossas.

Imagem ilustrativa gerada por IA.
Como a camada é executada
- Segmento experimental: o DER-SP pede pelo menos 200 m iniciais para confirmar o material e definir equipamentos e número de passadas.
- Superfície de apoio: a camada de baixo precisa estar concluída, limpa e aprovada. Se tomou chuva, verifica-se a umidade antes de seguir.
- Usinagem: usina com pelo menos três silos, controle de vazão de água e misturador tipo pugmill. Não se estoca material usinado.
- Transporte: caminhão basculante com lona, para não perder umidade.
- Espalhamento: com vibroacabadora. A motoniveladora só é aceita em serviços com menos de 100 m de extensão ou menos de 70 m³.
- Compactação: rolo liso vibratório e rolo de pneus, das bordas para o eixo nas tangentes e da borda interna para a externa nas curvas, até GC ≥ 100%.
- Imprimação: logo após a compactação, para proteger a camada. A BGS não deve receber tráfego.
Controle tecnológico na pista
- Umidade (método da frigideira) a cada 250 m², antes de compactar.
- Granulometria: 2 ensaios por jornada de 8 h, com intervalo mínimo de 4 h.
- Massa específica aparente in situ (frasco de areia) e grau de compactação a cada 250 m².
- Deflexões com viga Benkelman ou FWD, conforme o projeto.
Exemplo prático: quantidade para orçamento
Suponha uma base de BGS com 800 m de extensão, 7,0 m de largura e 15 cm de espessura acabada.
Volume compactado: 800 × 7,0 × 0,15 = 840 m³
Esse é o volume medido e pago: tanto o DNIT quanto o DER-SP medem a base em metro cúbico de camada compactada, calculado pela seção de projeto. Não se paga volume solto.
Para comprar e transportar, porém, o orçamentista precisa da massa. Se o ensaio de compactação da mistura indicar massa específica aparente seca máxima de 2,30 t/m³ (valor ilustrativo; use o do laboratório), e a especificação exige GC de 100%:
Massa seca: 840 × 2,30 = 1.932 t
Somando uma perda de 5% (adote a da composição de referência ou o histórico da sua obra), chega-se a cerca de 2.029 t de material seco. O caminhão ainda transporta a água da umidade ótima, o que pesa no frete e precisa entrar no cálculo da DMT.
Dois cuidados que costumam gerar prejuízo: orçar pela densidade solta do material na pedreira, que é bem menor que a compactada, e esquecer que o preço unitário da camada já inclui usinagem, transporte, espalhamento, compactação e acabamento.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre BGS e BGTC?
A BGTC (brita graduada tratada com cimento) recebe cimento na usina e ganha rigidez por cimentação. A BGS é só granular. A BGTC tem especificação, dosagem e cura próprias.
Posso fazer BGS misturando brita e pó na pista?
Pela especificação do DER-SP, não: a mistura é feita em usina, e não se admite mistura prévia dos materiais nos silos. Misturas feitas na pista, sem controle, raramente ficam dentro da faixa.
BGS serve para piso intertravado ou estacionamento?
Serve como base em muitos casos, mas espessura e faixa saem do dimensionamento do pavimento para o tráfego previsto. Em área com caminhões, não use espessura "de costume".
Conclusão
A BGS funciona muito bem quando três coisas andam juntas: material de rocha sã dentro da faixa, umidade perto da ótima e compactação até 100% da energia modificada. Para quem orça, o ponto central é medir em volume compactado e converter para massa usando a densidade do ensaio, nunca a densidade solta. E, antes de tudo, confirme qual especificação o contrato exige, porque DNIT, DER-SP e outros órgãos têm limites diferentes.